Hermafrodito e Salmacis – Mitos Gregos

Hermafrodito e Salmacis – Mitos Gregos

Hermes teve muitos amores e vários filhos. O mais célebre de todos, porém, foi Hermafrodito, nascido de sua união com Afrodite. Foi alimentado pelas Náiades nas cavernas do monte Ida. Seu rosto era tal que neles se podia facilmente reconhecer os traços do pai e da mãe (e foi também deles que tirou seu nome).

A viagem de Hermafrodito

Quando completou quinze anos, Hermafrodito deixou a montanha pátria e, afastando-se do Ida, percorreu alegremente lugares desconhecidos e cruzou rios ignotos. A curiosidade tornava-lhe mais leve a fadiga. Visitou também as cidades dos lícios e dos cários. Ali, deparou com um lago de águas tão transparentes que se lhe via o fundo.

Nelas não cresciam ervas aquáticas, nem plantas estéreis, nem juncos de ponta afiada: o olhar atravessava sem obstáculos a onda límpida. No entanto, os confins do lago eram bordejados de relva vivaz e árvores vigorosas.

Salmacis, a ninfa

O que Hermafrodito não desconfiava é que o local é habitado por uma ninfa que, entretanto, não sabe caçar; não está no número das que curvam o arco e perseguem as feras. De fato, é a única das Náiades que a rápida Ártemis desconhece.

Muitas vezes, segundo se conta, suas irmãs lhe diziam: “Salmacis, apanha um venábulo ou um carcás de vívidas cores e combate a ociosidade com as duras fadigas da caça”. Ela não apanha nem carcás de vividas cores nem venábulo, nem combate a ociosidade com as duras fadigas da caça.

Prefere banhar demoradamente os formosos membros na água de sua própria fonte ou pentear os cabelos, consultando sobre o que melhor lhe assenta as águas em que se mira. Às vezes, o corpo envolto num véu transparente, estira-se sobre um fofo leito de relva e ervas.

Não raro, colhe flores. E foi por puro acaso que as estava colhendo no dia em que avistou Hermafrodito – e, avistando-o, quis possuí-lo.

Salmacis apaixona-se por Hermafrodito

Todavia, Salmacis não abordou Hermafrodito imediatamente, apesar de toda a sua ânsia – não antes de verificar bem a aparência, examinar com olhar oblíquo as dobras do véu, dar ares convenientes ao rosto e fazer quanto era possível para parecer bela. Tomou então a palavra nos seguintes termos:

-“Jovem, digno de ser considerado um deus entre os que mais o sejam. Se fores deus, por certo que és Eros; se és mortal, felizes aqueles a quem deves a luz do dia, feliz teu irmão, bem feliz por certo (se tens uma) tua irmã, e bem assim, a ama que te aleitou. Porém, mais que todos, felicíssima tua noiva (se tens uma), ou a esposa (se tens uma) que honraste com a tocha nupcial! Se estás comprometido, consinto em tomar-te apenas um prazer passageiro; mas se não há outra mulher em tua vida, quero eu esse lugar. Vem, partilhemos o mesmo leito”!

A náiade calou-se então. O rubor invadiu o rosto de Hermafrodito, pois ignorava o que fosse o amor. A ninfa pedia-lhe, com insistência, ao menos beijos fraternos e já estendia a mão para o pescoço níveo do rapaz.

-“Acabaste”? – perguntou ele. “Então vou-me embora e vos deixo, a ti e ao teu lago”. Salmacis teve medo. – “O lugar é todo teu, estrangeiro” – disse ela, fingindo afastar-se, depois de lançar um derradeiro olhar por sobre o ombro.

A ninfa “captura” o jovem

Adiante, Salmacis escondeu-se entre uns arbustos, onde se agachou. Hermafrodito, cuidando-se só na pradaria e sem ninguém a observá-lo, caminha de cá para lá e molha na água agitada pela brisa a planta dos pés, da ponta dos dedos ao calcanhar. Sem mais hesitar, seduzido pela tepidez da água que o acaricia, atira para longe do corpo delicado as roupas macias. Interdita, Salmácide inflama-se de desejos por aquele formoso torso nu. Os olhos da ninfa despedem chispas.

Não consegue sopear a impaciência nem os transportes; quer a todo custo abraçá-lo, em seu tresloucado ardor. Hermafrodito, depois de borrifar-se com a concha das mãos, saltou na água e, em movimentos alternados dos braços, nadou na onda límpida onde sua imagem brilhava como estatuetas de marfim.

“Vitória! Ele é meu”! – bradou a náiade. E, despindo-se toda, atirou-se à água. Agarrou o jovem que se debatia, arrancou-lhe à força beijos febris, deslizou-lhe as mãos pelo corpo e acariciou-lhe o peito, malgrado a resistência da vítima.

A fusão entre os dois sexos

Hermafrodito se sentia envolvido ora por uma lado, ora por outro; finalmente, após inúteis tentativas de escapar, ela o enlaçou, tal qual a serpente que captura em suas roscas e arrebata aos ares o pássaro real.

Hermafrodito se debate e recusa à ninfa as voluptuosidades que ela apetece. Salmacis estreita-o ainda com mais força e vale-se na luta de todo o seu corpo, de sorte que os dois como que se tornam um só.

“Podes bracejar, malvado – ameaça ela -, mas não me escaparás! Ó deuses, ordenai que este jovem jamais se aparte de mim, nem eu dele”!

Esse voto achou acolhida junto aos deuses. Os corpos de Hermafrodito e Salmacis se misturaram em íntima união e assumiram uma aparência única. Assim como dois galhos enxertados, numa árvore, crescem juntos e acabam por fundir-se, assim, depois que os membros dos dois jovens se mesclaram num abraço tenaz, eles cessaram de ser dois, sem contudo deixar de partilhar de uma dupla natureza.

Hermafrodito clama pelos pais

É impossível dizer se se trata de uma mulher ou de um rapaz; o aspecto não é nem de um nem de outro, ao mesmo tempo que o é de ambos. Quando percebeu que aquelas águas límpidas, onde mergulhara homem, haviam feito dele um meio-macho, já sem grande vigor nos membros, Hermafrodito estendeu os braços e gritou, mas com voz nada masculina:

“Concedei uma graça, meu pai e minha mãe, ao filho que ostenta vossos dois nomes: que todo homem a banhar-se nesta fonte saia dela como que pela metade, destituído de forças viris”.

Comovidos, os pais acataram o voto do filho, agora biforme e diluíram, nas águas da fonte, um filtro de efeitos danosos.

 

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