Eco e Narciso – Conheça a história do mito grego

Eco e Narciso – Conheça a história do mito grego

Na mitologia grega, o mito de Narciso está associado a uma antiga superstição: contemplar a própria imagem é um presságio de má sorte. A palavra “narcisismo” está diretamente associada a este mito grego, e define justamente um indivíduo que admira excessivamente a si mesmo. Conheça a seguir a história de Eco e Narciso.

A origem de Narciso

O adivinho tebano Terésias dava respostas infalíveis àqueles que buscavam o seu conselho. A primeira a testar sua veracidade e a ver confirmados seus ditos foi a ninfa Liríope, que outrora o deus-rio Céfiso enlaçara nas curvas de seu curso e, aprisionando-a em suas águas, a violentara.

Maravilhosamente bela, Liríope engravidou e pôs no mundo um menino apto, desde o nascimento, a encantar as ninfas. Deu-lhe o nome de Narciso. E perguntou a Tirésias se seu filho chegaria à velhice.

O adivinho respondeu: “Somente se ele jamais enxergar a própria face.” Por muito tempo a palavra do profeta permaneceu obscura; mas foi justificada pelo andamento das coisas, pela maneira como morreu Narciso e pela estranheza de sua loucura.

Eco e Narciso

Quando o filho de Céfiso e Liríope chegou aos dezesseis anos, inúmeros rapazes e moças o desejavam, mas – tamanho desdém acompanhava sua delicada beleza! – nenhuma moça e nenhum rapaz conseguia tocá-lo. Certa feita, estando ele a caçar, a ninfa de voz sonora, que não sabe nem responder pelo silêncio a quem lhe fala, nem tomar por primeiro a palavra, Eco, a que devolve o som, avista Narciso.

Eco tinha então um corpo e ainda não era uma simples voz; contudo, já palradora, valia-se da boca (como hoje) para repetir as derradeiras palavras de uma frase. Hera era responsável por isso: tendo tido ocasião de surpreender as ninfas deitadas com Zeus na montanha, Eco a reteve habilmente com longos discursos, até que as ninfas se safassem.

Quando a filha de Cronos se apercebeu do engodo, disse: “– Com essa língua, que foi para mim danosa, não te será dado exercer senão um débil poder e só farás da palavra um uso reduzido.”

Eco, a ninfa, apaixona-se

E, com efeito, concretizou suas ameaças. Eco consegue apenas, quando deixamos de falar, duplicar os sons e repetir as palavras ouvidas. Quando viu Narciso errando ao acaso pelos campos, inflamou-se de desejos e pôs-se a segui-lo sorrateiramente. Quanto mais se prolongava a perseguição, mais ela se aquecia ao calor dessa chama, tal qual o enxofre sensível da extremidade da tocha brilha à aproximação do fogo.

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Ah, que de vezes não quis ela adiantar-se com palavras melífluas e endereçar-lhe súplicas tocantes! Mas a isso se opunha seu caráter: não tomaria a iniciativa. No entanto – isto sim, ela se permitia – estava disposta a ouvir os sons e devolver as próprias palavras do jovem.

As investidas da ninfa

Por acaso Narciso, separado do fiel magote de seus companheiros, perguntara:

– Haverá por aqui alguém?

– Alguém – respondera Eco.

O rapaz, estupefato, olha para todos os lados: — Vem cá! – grita a plenos pulmões. Eco lhe retruca nos mesmos termos e ele, espiando para trás e não vendo ninguém, prossegue:

– Por que foges?

Voltam-lhe aos ouvidos exatamente as palavras que acabara de proferir. Narciso, ludibriado pela ilusão da voz que replicava a sua, insiste: –Vem cá, reunamo-nos! A isso a ninfa respondeu de muitíssimo bom grado: – Reunamo-nos!

E a fim de secundar com sua presença o pedido, esgueirou-se para fora do bosque, tencionando abraçar o pescoço desejado.

Narciso foge e, na fuga, implora: – Nada de abraços! Morrerei antes que te aproveites de mim.

Eco repetiu: – Aproveita de mim!

Narciso é amaldiçoado pelas ninfas

Repelida, a pobre Eco escondeu-se na espessura e velou de folhas o rosto envergonhado. Daí por diante, só viveu em antros solitários. Mas seu amor é tenaz e cresce com a amargura do repúdio.

Os cuidados que atormentam suas vigílias consomem-lhe impiedosamente o corpo. A magreza enrugou-lhe a pele e a própria substância de seu corpo dissipou-se nos ares. Só lhe restaram a voz e os ossos.

A voz de Eco continua intacta; mas os ossos, ao que se diz, transmudaram-se em pedra. Por isso ela se esconde nas matas e ninguém a vê pelas montanhas. Todos, entretanto, a ouvem, pois só o som continua vivo nela. Assim Eco e as outras ninfas nascidas das ondas foram desprezadas por Narciso, como antes delas muitos homens. Mas então uma das vítimas de seus desdéns ergueu as mãos para o céu e bradou:

– Que Narciso venha por sua vez a amar e não consiga possuir o objeto de seu amor!

A deusa Nêmese acolheu esse justo voto.

Narciso apaixona-se por si

Havia uma fonte límpida, de águas brilhantes e argênteas, da qual jamais se haviam aproximado os pastores, as cabras que eles apascentam na montanha ou outro rebanho qualquer. A serenidade de sua superfície não fora ainda perturbada nem pelas aves, nem pelas feras, nem pelos ramos caídos das árvores.

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Era cercada de úmida relva, e a floresta circunjacente impedia o sol de aquecer aquele sítio. Foi ali que o jovem Narciso, fatigado da caçada e do calor, veio estender-se, atraído pela beleza do lugar e da fonte. Mas quando tentou aplacar a sede, outra sede o dominou.

Ao beber, seduzido pela imagem da própria beleza, que só agora percebia, Narciso enamorou-se de um reflexo vão e tomou por seu corpo o que não passava de uma sombra. Estacou em êxtase diante de si mesmo; e sem se mover, com o olhar fixo, absorto no espetáculo, mais parecia uma estátua feita em mármore.

Contemplação a própria imagem

Contemplava, deitado de bruços na margem, dois astros, seus próprios olhos; a cabeleira era digna de Dionísio e mesmo de Apolo; formosos eram a boca graciosa, as faces imberbes, o pescoço de marfim e a branca tez matizada de róseo. Narciso se perde em admiração diante de tudo aquilo que inspirava desejo – e ele próprio, em sua ignorância, se deseja.

Narciso endereça a si mesmo elogios e inspira os ardores que sente: torna-se, em suma, alimento do fogo que alumia. Quantas vezes atira beijos inconsistentes à onda enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço refletido, mergulha em vão os braços na água! Que vê ele? Ignora-o; mas o que vê esbraseia-o, e o mesmo erro que engana seus olhos excita sua concupiscência.

Deméter tenta interceder por Narciso

Ao ver Narciso nessa situação, a deusa Deméter resolve interceder:

“- Crédula criança, que esforços inúteis para apanhar uma aparência fugidia! O objeto de teu desejo não existe! Afasta-te e o verás desaparecer! A sombra que percebes é a réplica de tua própria imagem. Por si mesma ela não é nada, só persiste em virtude de tua presença; se te fores, ela se irá também … caso tenhas a coragem de partir!”

Amor platônico

Entretanto, nem os cuidados de Deméter nem a necessidade de repouso podem tirar Narciso de lá. Estendido na espessa relva, contempla insaciavelmente o próprio olhar e, ante a imagem mentirosa, faz-se artífice da própria ruína. Soerguendo-se e atirando os braços para a floresta que o cerca, geme:

“- Terá alguém neste mundo experimentado tão cruelmente o amor? Fui seduzido, bem sei; mas o que me seduziu está fora de alcance e ludibria o meu amor. E para maior sofrimento, não nos separa a imensidade do mar, uma longa estrada, uma alta montanha ou muralha de portas cerradas: só esse fino leito de água impede nossa união.

Aquele que contemplo também anseia por meu amplexo, pois toda vez que estendo os lábios para as límpidas ondas, ele, com os seus invertidos, procura alcançar os meus. Seria de crer que é possível tocá-lo, tão frágil se mostra o obstáculo entre nossos ardores. Se te busco, por que foges?

Minha aparência e minha idade não são de molde a te assustar! As ninfas me amaram! Em teu rosto querido me deixas ler uma certa esperança e, quando adianto os braços, adiantas os teus; ao meu sorriso responde teu sorriso e muitas vezes cheguei mesmo a lobrigar em ti as lágrimas que eu derramava. “

Eco apieda-se de Narciso

Assim se lamentando, Narciso desnuda-se e golpeia o peito nu com as palmas de suas mãos de mármore. Ante os golpes a pele se tinge de róseo, qual fruto branco amadurecido em parte ou uva verde pintalgada de rubro.

Quando se mirou nas águas já serenadas, não mais pôde suportar a angústia; como a dourada cera ao doce calor da chama ou o orvalho matinal à tepidez do sol, Narciso, esgotado de amor, foi aos poucos sendo consumido por um fogo secreto.

Hoje sua pele não ostenta já a mesma brancura matizada de róseo. Perdeu o vigor, as forças e tudo o mais que outrora seduzia os olhos: nada restou do corpo por quem Eco se apaixonara. Ante essa cena, e se bem que ainda ressentida, a ninfa entregou-se à dor e passou a repetir todos os “ais!” que gemera o desditoso jovem e até o som dos golpes que ele se infligira.

E quando Narciso murmurou: “Adeus!”, Eco murmurou também: “Adeus!”

Narciso então pousou a cabeça fatigada na erva verde e a noite cerrou aqueles olhos cheios de admiração por seu dono. Mesmo na morada infernal, continua a mirar-se no Estige. Suas irmãs, as Náiades, pratearam-no e depuseram-lhe sobre a tumba os cabelos cortados.

Também o choraram as Dríades, em lamentos que Eco não cessava de reproduzir. Preparavam já o funeral quando perceberam que o corpo desaparecera. Em seu lugar, encontraram uma flor amarelo-açafrão, com o centro rodeado de pétalas brancas.

 

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